TRATAMENTO CIRÚRGICO DA HIPERTROFIA DO CLITÓRIS APÓS USO DE ESTERÓIDES ANABOLIZANTES – RELATO DE CASO
 
Índice
Introdução | Relato de Caso | Discussão | Conclusão | Bibliografia | Figuras
 
Autor
Alvaro Luiz Cansanção
 
Endereço para correspondência
AV. SERNAMBETIBA 6250 / 913, BARRA DA TIJUCA, RIO DE JANEIRO
Telefone: (11) 3826-1499
E-mail: congresso@cirurgiaplastica.org.br
 
Co-autores
Adriano Gonçaves Pereira
Alvaro Luiz Cansanção
Bethania Cansanção
 
Descritores
HIPERTROFIA DO CLITÓRIS, ESTERÓIDES, ANABOLIZANTES
 
Introdução
A hipertrofia do clitóris é uma alteração relativamente freqüente, no recém-nato esta freqüentemente associada aos casos de hermafroditismo verdadeiro e pseudo-hermafroditismo masculino que, em geral, ocorrem devido à hiperplasia adrenal congênita ou por efeito de drogas utilizadas pela mãe durante a gravidez. Na fase adulta pode ocorrer devido a tumores endócrinos, que levam a produção exacerbada de testosterona, e ao uso de esteróides anabolizantes.
O Tratamento cirúrgico empregado na maioria dos casos, consiste na amputação do clitóris, sem se preocupar com a perda da sensibilidade e com os conseqüentes transtornos sexuais que a perda deste órgão pode vir a causar na paciente. Na tentativa de se preservar o clitóris, foram criadas técnicas onde se realizava uma invaginação do clitóris no espaço retro púbico, com resultados pouco satisfatórios, visto que com a ereção dos corpos cavernosos podem ocorrer complicações, como o priapismo, que frequentemente obrigam a uma posterior amputação do clitóris. Levando-se em consideração estes conceitos, devemos, ao realizar uma cirurgia para correção da hipertrofia do clitóris, utilizar técnicas que preservem a inervação na tentativa de mantermos a sensibilidade da glande do clitóris e consequentemente uma função sexual satisfatória.
A utilização de esteróides anabolizantes por pacientes do sexo feminino, com intuito de aumentar a massa muscular e diminuir o percentual de gordura do organismo, tem se tornado um recurso, apesar de ilegal, cada vez mais utilizado. Sua utilização é bastante perigosa, devido aos efeitos colaterais destas drogas. A ocorrência destes efeitos depende principalmente de alguns fatores como por exemplo: dosagem, tempo de uso, tipo de droga usada e predisposição individual.
A incidência das pacientes que evoluem com hipertrofia do clitóris e bastante elevada, em torno de 30%.
Topo
Relato de Caso
M.B.T. 23 anos, dançarina, apresentando aumento do clitóris a aproximadamente 3 anos, de inicio após uso de esteróides anabolizantes (decadurabolim®, duratestom® e hemogenim®), em doses muitas vezes maiores do que a terapêutica, por 2 anos ininterruptamente. Ao exame físico, clitóris com aproximadamente três centímetro. Apresentando ainda rouquidão, hirsuitismo, atrofia mamaria, distúrbios menstruais e acne. Descontinuou o uso destas substancias há aproximadamente um ano. Relata historia menstrual normal ate o inicio do uso destas drogas. Foi solicitado tomografia de supra-renais e cariótipo, os quais se encontravam dentro da normalidade.
A paciente foi submetida a tratamento cirúrgico, clitoridectomia, com preservação da parte distal da glande do clitóris, a qual teve sua inervação preservada através de um retalho mucoso do prepúcio, na região inferior do clitóris o qual manteve a continuidade com os pequenos lábios. Após ressecção do corpo do clitóris a glande foi anastomosada à base com pontos simples de categute 4-0.
Realizado ainda no mesmo tempo cirúrgico o implante de prótese mamaria de silicone de alta coesividade, texturizada, de 250 ml, em espaço retroglandular, por via periareolar. Paciente evoluiu bem no pós-operatório imediato tendo alta no 2º dia, sem intercorrencias. O hirsuitismo foi tratado em outro serviço com depilação a laser, com bons resultados.Encontra-se em acompanhamento ambulatorial, presentando uma evolução bastante satisfatória, relatando preservação da sensibilidade do clitóris.
Topo
Discussão
O uso de esteróides anabolizantes com fins estéticos é uma pratica bastante comum, e muito perigosa, devido aos efeitos colaterais que este grupo de drogas apresentam, alguns ate mesmo fatais. A freqüência e a intensidade com que estes efeito indesejáveis aparecem dependem de vários fatores, esta paciente apresentou inúmeros efeitos colaterais de esteróides anabolizantes, rouquidão, hirsuitismo, atrofia mamaria, distúrbios menstruais e acne, os quais com exceção dos distúrbios do ciclo menstrual e da acne, não regrediram com o fim do uso das drogas. Principalmente no sexo feminino é bastante comum estes distúrbios tornarem-se crônicos.
As drogas utilizadas pela paciente por um período de dois anos consecutivos, em doses elevadas foram Decadurabolim® (decanoato de nandrolona), Hemogenim® (Oximetalona), Duratestom® (propionato de testosterona, fenilpropionato de testosterona, isocaproato e caproato de testosterona).
O diagnostico diferencial com estados intersexuais e com tumores das supra- renais deve ser cuidadosamente estudado.
No caso apresentado temos uma paciente com historia ginecológica normal, que apresentou uma grande hipertrofia do clitóris pelo uso de esteróides anabolizantes, o que lhe causava distúrbios sexuais importantes, a qual desejava ser submetida à clitoridectomia e não se importava em ter a sensibilidade do clitóris preservada, tão importante era seu trauma devido a esta situação. Foi submetida à clitoridectomia com preservação da inervação da glande do clitóris com sucesso e hoje se encontra plenamente satisfeita. Porem a possibilidade da perda parcial ou total da sensibilidade deve ser sempre exposta à paciente no pré-operatório.
Não encontramos na literatura médica nenhum caso de tratamento cirúrgico da hipertrofia do clitóris causado pelo uso de anabolizantes, porem, com a crescente utilização destas drogas por pacientes de todas as classes sociais, na maioria dos casos sem acompanhamento medico, esta é uma cirurgia que tende a ser cada vez mais comum na pratica médica.
Topo
Conclusão
Devido à importância do ponto de vista psicológico da sensibilidade do clitóris na atividade sexual das mulheres, a sua perda pode gerar sérios transtornos. Portanto ao se realizar uma clitoridectomia, devemos dar extrema importância à preservação da sensibilidade da glande deste órgão.
Topo
Bibliografia
1). ANSELL, J.S.: A New and Simplified method for Concealing the Hypertro-phied Clitoris. Journal of Pediatric Surgery. 16 (5): 681. October 1981.
2). RANDOLPH, J.G.: et al.: Reduction Clitoroplasty in Females With Hypertrophied Clitoris. Journal of Pediatric Surgery. 5 (2): 224. April 1970.
3). SHAW, A.: Subcutneous .Reduction Clitoroplasty. Journal of Pediatric Surgery. 12 (3): 331 June1977.
4). Korkia P; Stimson, GV.: Indications of prevalence, pratice and effects of anabolic steroid use in Great Britain, Int J Sports Med; 18(7):557-62, Germany, oct 1997
Topo
Figuras

 
Figura 01: pré-operatorio
 
Figura 02: pré-operatorio (close)
 
Figura 03: incisão preservando a glande do clitóris
 
Figura 04: retalho mucoso da parte inferior do prepúcio e pequenos lábios, contendo ainda a parte distal da glande do clitóris (preservação da sensibilidade)
 
Figura 05: corpo do clitóris após dissecção
 
Figura 06: Resultado pós-operatório imediato, após clitoridectomia e anastomose do coto distal ao coto proximal.
 
Topo